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a responsabilidade pelos seus objetos é sua


Eu sempre tentei ser uma pessoa muito organizada, principalmente com os estudos, meus cadernos eram muito bem decorados e eu tinha várias pastas para guardar os trabalhos, provas e apostilas e sempre me orgulhei disso, porém acabava juntando um monte de papéis e quando passava o ano eu não queria me desfazer de nada porque achava que iria utilizar algum dia ou simplesmente ficava com dó, pois tão lindos os caderninhos e o resultado de tudo isso foi um montante de coisas guardadas desde a quinta série até o último ano da faculdade e se procurasse bem tinha coisas do primário também.

Como eu já me mudei várias vezes não fiquei carregando tudo isso comigo e deixava na casa dos meus pais em um móvel no quarto de hóspedes e para mim estava ok, nunca mais mexi porque não usava pra nada e minha mãe nunca reclamou.

Quando li o livro A mágica da arrumação, vi que a Marie Kondo fala que a responsabilidade pelas suas coisas é sua e que deixar tralha na casa dos pais ou repassar a pessoas da sua família coisas que elas não querem acaba como uma obrigação pra eles aceitarem porque fica chato dizer não, eu até achei a fala interessante, mas não me toquei que eu fazia exatamente isso com minha papelada de escola.

Durante minha licença maternidade fui passar um tempo na casa dos meus pais e minha mãe me falou que queria tirar aquele móvel do quarto, mas que ainda tinha muita coisa nele, meio que me dando uma indireta bem direta sobre aquela minha tralha, então fui revisitar aqueles mais de dez anos de papéis e percebi que não serviam pra nada e era realmente muita coisa, eu guardava cada prova, cada trabalho que já fiz e percebi que eles já tinham cumprido seu papel na minha vida,  revisei tudo aquilo, guardei no coração as lembranças, tirei foto de algumas coisas, separei outras mais sentimentais em uma pequena caixa e deixei ir todo o resto, minha mãe ficou feliz com mais espaço no quarto e eu com menos tralha (que nem lembrava que existiam) pra me preocupar.

Acredito que o minimalismo é algo que se estabelece aos poucos na nossa vida e perceber essas nuances de acumulador que as vezes achamos que não é nada de mais tem me feito muito bem porque além de liberar espaço na minha vida,  nesse caso também liberou espaço na vida da minha mãe, eu sei que ela guardaria com todo carinho se eu continuasse deixando lá, mas essas coisas eram de minha responsabilidade e por mais que ela não as quisesse jamais iria se livrar sem meu consentimento, fiquei feliz com esse destralhe e acho que esse é o verdadeiro propósito de destralhar: liberar espaço e nos deixar bem com isso.

primeiro ano da nossa família

Depois de uma gestação de 40 semanas com muitos enjoos, dores, ansiedade e incertezas no dia 02 de julho de 2019 Joaquim nasceu e (essa é uma frase muito clichê, mas muito real) nós renascemos junto com ele. Há um ano entramos na maternidade sendo um casal e saímos de lá sendo uma família! Quando o bebê completa um ano mais do que comemorar o aniversário dele os pais também comemoram o seu primeiro aniversário sendo pais, comemoramos:

  • um ano do primeiro choro
  • um ano do primeiro mamá
  • um ano da primeira troca de fralda
  • um ano do primeiro banho
  • um ano da primeira noite acordados observando ele dormir (ou não dormir)
  • um ano que olhamos para ele e depois um para o outro com os olhos lacrimejados e comemoramos em silêncio com um sorriso
  • um ano da felicidade mais desmedida e controversa que uma mãe já sentiu, pois como pode algo que lhe causou tanta dor lhe trazer um prazer e um amor tão grandes ao mesmo tempo?

Os pais comemoram mais do que os filhos porque esse período de um ano é a fase em que o bebê é mais sensível e dependente é um tempo nebuloso porque ao mesmo tempo em que estão eufóricos e cheios de alegria por aquela nova vida também estão aflitos e com medo de que algo aconteça, medo de uma queda, de um engasgo, de estar com muito frio, de estar com muito calor, de estar com fome, de estar sentindo alguma dor e o desespero por não entender qual dessas coisas aquele choro inconsolável quer expressar.

Comemoramos por já ter passado pelas vacinas que parecem doer mais em nós do que nele, por já ter passado pela angústia das consultas mensais pra saber se o bebê está ganhando peso, se está se desenvolvendo adequadamente. Comemoramos todas as roupinhas que ele foi deixando pra trás porque estava crescendo, todas as fraldas sujas porque elas significavam que seu corpinho estava funcionando direitinho. Comemoramos também o primeiro sorriso, as primeiras vezes que rolou sozinho, as primeiras vezes que se arrastou e conseguiu engatinhar.

Comemoramos o sucesso da amamentação, no nosso caso com leite materno exclusivo até os seis meses e depois continuando como principal alimento aliado a introdução alimentar, amamentação essa que não foi fácil, porém foi muito recompensadora, descobrimos juntos que amamentar é natural, mas que precisa ser aprendida por nós dois.

Comemoramos os primeiros seis meses de introdução alimentar, a alegria de ver ele comendo sozinho e gostando de tudo o que experimenta, comemoramos também a bagunça que ele faz ao comer, se sujar faz parte e tudo bem se depois de cada refeição tenha que tomar banho, falando em banho, também é motivo de comemorar porque cada banho foi um desafio e agora é uma festa.

Comemoramos os dentinhos que estão nascendo e que apesar de serem incômodos e algumas vezes causarem uma temperatura mais elevada ou uma irritação são sinais de que está tudo certo e que logo levaremos mordidinhas de amor.

É nesse primeiro ano que começamos a comemorar os primeiros passinhos que apesar de não estarem muito firmes ainda já são motivo de emoção e esta mãe mais emocionada que o normal chora toda vez que ele cria coragem e se solta pra ir correndo para nossos braços, logo ele vai estar correndo atrás de nós (ou nós atrás dele, o que é mais provável).

Além dessa comemoração em família também existe a comemoração particular da mãe porque uma mãe comemora o fato de ter saído do puerpério, um período muitas vezes solitário e escuro onde ela se sente sozinha mesmo cercada de pessoas, foram 365 dias de privação de sono, onde ela abriu mão de si mesma para cuidar de outro ser, passou por um período de despersonalização e reconstrução de uma nova identidade, um período de medo do futuro, medo de não dar conta de tudo, de estar fazendo tudo errado, de chorar várias vezes escondida, outras vezes na frente de todo mundo, de ser excluída do seu círculo social e de ouvir palpites falando sobre assuntos muitas vezes constrangedores e fazer um esforço enorme pra não se sentir uma péssima mãe, além de toda a conotação de mãe chata que recebe toda vez que tem de se impor e deixar claro a maneira na qual quer criar seu filho, muitas vezes ignorada pelos outros que tentam se intrometer.

A criança pode não entender nada sobre a passagem dos dias divididos em períodos de meses e anos, mas a comemoração é muito importante para os pais por terem tido todas essas vitórias e é muito justo o desejo de comemorar com uma festa, convidar os amigos, compartilhar comida e sorrisos, mostrar pra todos os convidados o quanto aquela criança cresceu, está saudável e feliz e agradecer a cada um que esteve presente, que ajudou de alguma maneira pra que dentro desse ano os pais conseguissem esse feito, o  mérito é todo deles, mas com a ajuda das pessoas com certeza foi mais fácil.

Porém estamos passando por um período em que esse encontro não é possível, por isso fiz esse vídeo para compartilhar com todos os que estão longe esse nosso momento tão feliz, esperamos que no ano que vem possamos comemorar juntos.